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Quanto de NeuroArquitetura há nos condomínios do Minha Casa, Minha Vida? - parte II

Updated: Dec 2, 2019


Por Andréa de Paiva


Este artigo tem como base a experiência da autora em visitas realizadas nos condomínios do Minha Casa, Minha Vida e CDHU no interior de São Paulo, Triângulo Mineiro e norte do Paraná, para projeto de consultoria realizado na FGV Projetos.


Dando sequência ao primeiro artigo Quanto de NeuroArquitetura há nos condomínios do Minha Casa, Minha Vida, vamos discutir agora algumas possíveis alternativas para solucionar o problema da desumanização em condomínios de habitação popular, sempre sob a ótica da NeuroArquitetura.


Condomínio do Minha Casa, Minha Vida em Londrina, Paraná

Ao entrevistar os moradores dos condomínios do Minha Casa, Minha Vida, também foram entrevistados moradores de residências individuais em loteamento do mesmo programa. O resultado das entrevistas expressa um contraste interessante: os moradores das casas em loteamento estavam muito mais satisfeitos do que aqueles que moravam em condomínios. Além disso, as casas em loteamento se encontravam em muito melhor estado de conservação do que os prédios ou casas de condomínios.


Loteamento de casas do Minha Casa, Minha Vida depois da ocupação - Itu, São Paulo

Mas o que provocava essa relação tão diferente dos moradores com a arquitetura? Entre os diversos fatores identificados, alguns merecem destaque, tais como a privacidade, a sensação de controle do espaço e a possibilidade de customização.

Neste artigo discutiremos o que a NeuroArquitetura revela sobre a importância da sensação de controle e da customização do espaço para gerar pertencimento e apego.


Evolutivamente, nosso cérebro foi programado para controlar situações básicas relacionadas à nossa sobrevivência [1]. Comer quando há fome, beber quando há sede, lutar ou fugir quando há uma ameaça. A perda da sensação de controle impacta diretamente na saúde cerebral. Em estudo feito com ratos, essa perda os levou a um aumento de stress e a uma morte antecipada em relação aos ratos que se percebiam no controle da situação [2].


No caso das habitações populares, as regras do condomínio limitam a sensação de controle do espaço físico dos moradores. Seja dentro do apartamento, onde o excesso de barulho pode gerar multas e problemas com os vizinhos e onde a arquitetura não pode ser livremente alterada para adaptar-se às necessidades das famílias. Seja nas áreas comuns, onde os moradores não podem mudar a decoração e a conservação do espaço depende da colaboração de todos os condôminos. Essa falta de controle de um espaço que é tão importante como o espaço de morar gera um grande aumento do stress. Isso resulta não só em problemas de convivência entre vizinhos, mas também em uma falta de identificação com a arquitetura e até mesmo em problemas de saúde gerados pelo stress da situação como um todo [3].


Já no caso das casas em loteamento, as condições são bastante diferentes. A arquitetura pode ser alterada e adaptada para satisfazer necessidades específicas das famílias, tais como acrescentar quartos fazendo um "puxadinho" só alterando a posição das paredes internas. Externamente, as residências também podem ser personalizadas, gerando identificação por parte da família residente. O resultado disso são casas mais bem conservadas e famílias mais felizes e em harmonia.


Loteamento de casas do Minha Casa, Minha Vida depois da ocupação - Cambé, Paraná

Mas as casas em loteamento não são uma solução viável para os grandes centros urbanos onde o espaço é limitado. Será que é possível levar esses elementos de customização e de controle do espaço para a arquitetura dos condomínios? Que outros fatores também devem ser levados em consideração nos projetos de habitação popular?


A relação entre NeuroArquitetura e habitação popular é bastante ampla e não se esgota no que discutimos até aqui. Por isso, em breve voltaremos a analisar outras questões relacionadas ao tema e que podem ajudar os arquitetos a enfrentar esse desafio!


Leia a primeira parte deste artigo aqui: Parte I


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Referências:


[1] KÜHNAB, S., BRASSA, M., HAGGARD, P. (2012) Feeling in control: Neural correlates of experience of agency. Elsevier: Volume 49, Issue 7, July–August 2013, Pages 1935-1942.

[2] Rock, D. (2009) Your Brain At Work. New York: HarperBusiness

[3] BORHANI, K., BECK, B., HAGGARD, P. (2017) Choosing, Doing, and Controlling: Implicit Sense of Agency Over Somatosensory Events. Psychological Science 2017, Vol. 28(7) 882–893.




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