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O que a Disney nos ensina de NeuroArquitetura

Updated: Dec 2, 2019


Por Andréa de Paiva


A Disney é uma das empresas de maior sucesso no mundo. Desde 1955, quando a Disneyland foi inaugurada na Califórnia, e de 1971, quando abriu o primeiro parque do Disney World em Orlando, seus parques temáticos atraem turistas de todas as idades e culturas. Mas, afinal, o que a torna tão especial? No artigo de hoje vamos discutir quais elementos de NeuroArquitetura contribuem para tanto sucesso.


Magic Kingdom, Disney World - Orlando

Quem nunca se emocionou assistindo a animações como A Bela e a Fera ou Rei Leão? Quem nunca ouviu a música dos sete anões ou Hakuna Matata? É importante destacar que essas histórias não só fizeram parte da nossa infância, como muitas fizeram da de nossos pais e outras continuam fazendo da de nossos filhos. Personagens, músicas, cenários, fábulas que estão profundamente gravadas na nossa cultura e na nossa memória. Portanto, a oportunidade de passear na Disney é também uma chance de visitar memórias antigas e queridas.


Grande parte dos elementos presentes nos parques nos remete aos personagens e histórias que conhecemos de longa data. Seja na decoração dos espaços externos e internos ou mesmo quando cruzamos com algum desses personagens posando para tirar fotos e abraçar os fãs. Essa riqueza de informações sensoriais (imagens, cheiros, sons, texturas) ativa a memória involuntária. Esse é o tipo de memória que surge nos nossos pensamentos de forma automática, sem o nosso esforço. Isso acontece quando os elementos sensoriais, de alguma forma, são semelhantes aos elementos presentes quando a memória foi formada [1].


Antes mesmo de chegar no parque, as expectativas são altas. Ainda que seja sua primeira ida lá, você pelo menos já ouviu algum amigo contando que foi. Ou então assistiu a algum documentário ou viu uma propaganda sobre os parques. Estudos recentes de neurociência mostram como a expectativa tem o poder de mudar nossa percepção [2]. Dessa forma, antes mesmo de chegar ao parque o seu cérebro e o seu corpo já se preparam para uma experiência incrível, colocando você em um estado mais aberto e descontraído.


As próprias entradas dos parques contribuem para isso. Todo o percurso do estacionamento, o trem que leva do carro à entrada, a disposição espacial da entrada, que muitas vezes esconde o parque, mas já revela alguns elementos da magia do lugar, como um jardim cujas cores das flores definem o rosto de um personagem ou cujo corte das plantas define uma cena clássica de um dos filmes. Todo esse conjunto de elementos serve para colocar você no estado mental adequado para esquecer os problemas do mundo real e curtir a experiência de estar no mundo da fantasia.


Entrada do Parque Magic Kingdom

Como já discutimos no nosso artigo sobre emoção, quando a arquitetura é capaz de evocar emoções positivas, ela altera também o filtro com o qual percebemos a realidade. Toda a nossa percepção sensorial se altera: um cheiro doce pode ficar ainda mais doce, uma música pode soar ainda mais contagiante, uma paisagem pode parecer mais bela. E antes mesmo de entrarmos nos parques, todos os elementos da arquitetura já contribuem para que fiquemos nesse estado positivo.


Finalmente, ao entrar nos parques, nos percebemos inseridos no mundo da fantasia. Todos os funcionários são sorridentes e extremamente gentis. Todos os lugares são limpos, não tem nenhum lixo no chão. Pra onde você olhar você vê sorrisos e pessoas se divertindo. O cheiro de cada restaurante é irresistível. Os personagens da sua infância estão espalhados pelo parque prontos para abraçar você e tirar uma foto. Até mesmo as filas dos brinquedos são cheias de elementos para nos distrair e nos mater nesse mundo da fantasia.


Vale destacar que as áreas mais primitivas do nosso cérebro não sabem definir ao certo o que é realidade e o que é ficção. Por isso assistir a um filme de terror de madrugada, sozinho em casa, pode ser tão assustador. Conscientemente você sabe que aquilo não é real, mas ainda assim seu coração dispara e você dá um pulo da cadeira, preparando o seu corpo para entrar no estado de luta ou fuga, como se você estivesse vivendo aquela história. No caso da Disney, os efeitos podem ser mais sutis, mas eles também acontecem. Parte de você (a parte mais primitiva) vive aquela experiência como se ela fosse real.


Mais uma característica importante: você reparou que a maioria dos banheiros dos parques não têm espelho na frente da pia? A ausência de espelhos nas pias faz com que a gente se olhe menos no espelho. Então ao invés de prestar atenção nas suas olheiras de alguém que está cansado depois de andar o dia todo no parque ou no seu cabelo que está despenteado depois de ir numa divertida montanha-russa, você simplesmente lava as mãos e volta para a diversão. Até os banheiros da Disney foram pensados para nos manter no mundo da fantasia.


Uma visita aos parques temáticos da Disney com o olhar atento é uma aula sobre diversas aplicações da NeuroArquitetura. Esse olhar tem que estar direcionado não apenas para os elementos concretos que podem ser observados, como o castelo da Cinderella ou o rosto do Mickey esculpido na grama, mas para as intenções por trás de cada um desses elementos: sua posição em relação ao layout do parque, as memórias e sensações que eles evocam, o mundo de fantasia que eles representam, a localização estratégica de alguns deles para atrair nossa atenção e nos tirar o foco de situações menos prazerosas (como esperar na fila). Entre outras coisas, é a aplicação correta desses elementos de NeuroArquitetura, associadas não apenas ao espaço, mas à própria cultura da empresa e aos funcionários ali presentes, que faz com que os parques temáticos da Disney sejam os de maior sucesso do mundo!


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Referências:


[1] Campen, C. (2014) The Proust Effect: The Senses as Doorways to Lost Memories. Oxford University Press.


[2] de Lange, F., Heilbron, M., Kok, P. () How Do Expectations Shape Perception? Trends Cogn Sci. 2018 Sep;22(9):764-779. doi: 10.1016/j.tics.2018.06.002.


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