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Ambiente de Trabalho e Saúde Cerebral: Insights da NeuroArquitetura

Updated: Dec 2, 2019


Por Andréa de Paiva

Você já parou para analisar quantas horas do ano você passa no seu ambiente de trabalho? Com uma conta simples, considerando apenas 8 horas de trabalho por dia e apenas os dias úteis do ano, passamos cerca de 2.000 horas ocupando esses espaços. Essa condição gera uma consequência preocupante: os impactos de tais ambientes na saúde cerebral estão diretamente relacionados ao seu tempo de ocupação, ou seja, quanto mais tempo passamos no mesmo lugar, mais ele pode nos afetar. Será que as empresas têm a exata noção de como sua arquitetura pode impactar a saúde mental e física de seus funcionários? A resposta é: não. No artigo de hoje discutiremos alguns insights da NeuroArquitetura para essa questão.

Fonte: bostonglobe

Influenciados pela revolução industrial e pelo sistema de produção em massa, inicialmente os ambientes de trabalho eram projetados buscando a mesma eficiência da linha de produção das indústrias. Dessa forma, a organização dos espaços dos escritórios visava apenas facilitar o sistema de produção da empresa, focando no aumento da quantidade produzida. A hierarquização dos ambientes, a localização de cada equipe e dos seus líderes e até a decoração das salas eram planejadas com foco apenas na produção, como numa fábrica [1]. Porém, ao contrário das fábricas que funcionam majoritariamente com base no trabalho de máquinas, os escritórios funcionam com base no trabalho de pessoas.


O resultado disso são ambientes de trabalho desumanizados, sem identidade. Ambientes que prejudicam a saúde mental e física das pessoas que os ocupam, com impactos diretos nos níveis de stress e ansiedade. Espaços que podem aumentar conflitos, falta de colaboração e de comunicação, insegurança, dificuldade de concentração, ausência de criatividade.


Infelizmente, ainda hoje as empresas têm dificuldade de se desvencilhar desses ideais de produção. Porém, com a revolução tecnológica que tem acontecido nos últimos anos, cada vez mais estão sendo valorizadas as características humanas que as máquinas não conseguem (ainda) substituir. Dessa forma, os espaços passam a ser construídos com foco nas pessoas e sua capacidade criativa, comunicativa e colaborativa. A qualidade do trabalho passa a ser mais valorizada do que a quantidade.


A NeuroArquitetura vem para ajudar na criação de espaços mais humanos de trabalho. São inúmeros os elementos do espaço físico que impactam diretamente na capacidade cognitiva, nos níveis de atenção, na criatividade e no aprendizado [2]. Cores, formatos, tamanhos e proporções, layout do ambiente, isolamento visual e sonoro são alguns exemplos. Como combinar esses diversos elementos para criar o ambiente ideal?

Antes de mais nada, a NeuroArquitetura tem mostrado que não existem fórmulas prontas a serem seguidas. Um ambiente eficiente de trabalho só pode ser criado quando os arquitetos sabem quem são os profissionais que ocuparão aquele espaço e qual a tarefa que será executada ali. Ainda assim, existem algumas características do ambiente construído que resultarão em impactos positivos independente do tipo de tarefa a ser executada no escritório. O contato com a natureza (biofilia) e a diversidade sensorial e de ambientes são exemplos disso. A escolha de materiais, a organização do layout e a criação de ambientes alternativos de ocupação são pontos chave no projeto de um espaço de trabalho saudável e eficiente.


Alguns exemplos práticos: elementos que remetam à uma paisagem natural podem diminuir os níveis de stress e aumentar a concentração (conforme já discutido em artigos anteriores: Entendendo a Biofilia e Cidades Doentes); a riqueza sensorial obtida através da utilização de texturas, cores, formatos e odores estimula o processo de aprendizado e memorização (tanto a criação da memória como sua recuperação quando ela deve ser lembrada) [3]; a organização do layout pode estimular a colaboração e comunicação entre equipes [4]; a criação de ambientes alternativos de ocupação, como salas de reunião e salas de telefonemas, aumentam a sensação de controle por parte dos funcionários, diminuindo o stress e gerando alternativas para aumentar a privacidade e, consequentemente a concentração.


Apesar do aumento do conhecimento de NeuroArquitetura e das mudanças que o mundo corporativo vem sofrendo, infelizmente ainda é grande o número de empresas e espaços de trabalho que sofrem influências do sistema de produção em massa. Ou seja, muitas pessoas ainda têm que trabalhar em espaços desumanizados que impactam negativamente tanto na sua performance como na sua saúde física e mental. Por isso, cabe também aos arquitetos e aos neuroarquitetos não só o desafio de criar ambientes mais humanos e saudáveis, mas o desafio de transformar mentalidades que ainda estão presas a valores ultrapassados. Quer saber mais sobre o tema? Siga a gente no Facebook ou Instagram! =)



Referências:


[1] KAPÁS, J. (2008) Industrial revolutions and the evolution of the firm’s organization: an historical perspective. Journal of Innovation Economics & Management. 2008/2 (n° 2) Pages : 196 DOI : 10.3917/jie.002.0015

[2] PAIVA. A. (2018) Neuroscience for Architecture: How Building Design Can Influence Behaviors and Performance. Journal of Civil Engineering and Architecture, Volume 12, Number 2, February 2018 (Serial Number 123) Pages: 132-138.

[3] MANDOLESI, L., GELFO, F., SERRA, L., MONTUORI, S., POLVERINO, A., CURCIO, G., SORRENTINO, G. (2017) Environmental Factors Promoting Neural Plasticity: Insights from Animal and Human Studies. Neural Plasticity. Volume 2017, Article ID 7219461. https://doi.org/10.1155/2017/7219461

[4] BROWN, G. (2008) "Proximity and collaboration: measuring workplace configuration", Journal of Corporate Real Estate, Vol. 10 Issue: 1, pp.5-26, https://doi.org/10.1108/14630010810881630


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