Search

Ambientes de Ensino na Pandemia: reflexões da NeuroArquitetura

Updated: 5 days ago

Parte I: o corpo


Por Andréa de Paiva



Você participou de algum curso online ao longo da pandemia? Como foi sua experiência? Com o isolamento social, escolas dos mais diferentes tipos tiveram que se adaptar ao modelo de aulas online. Educação infantil, universidades, cursos de especialização todos esses ambientes de ensino tiveram que ser transformados. Nossa casa - tanto a casa do professor como a do aluno - passou a ser incluída nessa equação juntamente com o ambiente virtual. Em meio a tantas mudanças e com as possibilidades do ensino à distância, a NeuroArquitetura traz reflexões importantes sobre os ambientes de ensino. No artigo de hoje, selecionamos uma dessas reflexões para discutir: a relação entre corpo e aprendizado.


Image by Gerd Altmann from Pixabay

Assim como discutido no nosso último artigo sobre os escritórios, algumas das mudanças nos ambientes de ensino nesse período de isolamento social estão transformando as possibilidades existentes. Pessoas que antes não tinham tempo ou condições logísticas de fazer um curso presencial se beneficiaram com a oportunidade de fazer o curso sem sair de casa. Muitas instituições de ensino e professores também observam alguns benefícios: cursos que antes eram regionais, agora podem ser oferecidos em escala nacional, sem gastos extras com a logística da viagem de professores.


Por outro lado, na sala de aula, alunos e professores ocupam um espaço que foi pensado para funcionar como um ambiente de ensino. A iluminação, a ventilação, a acústica, o mobiliário - e todo o complexo do edifício escolar! - foram planejados de modo a oferecer um ambiente adequado que contribua para o aprendizado e para as trocas entre alunos e professores. Além disso, ele é um espaço com menor interferência externa. Com o celular no silencioso, é quase certo que alunos e professores conseguirão passar as horas da aula sem serem interrompidos por familiares, pelo som da televisão ou pelo interfone tocando.


Alguns temas dentro da NeuroArquitetura, porém, trazem nossa atenção para outros pontos que merecem ser discutidos quando consideramos cursos online ou no modelo blended (mesclado com uma parte online e outra presencial). O maior entendimento do cérebro e da nossa biologia nos ajuda a direcionar o olhar para questões que poderiam passar despercebidas nesse cenário.


A visão que considera corpo e mente de maneira separada, conhecida como dualidade corpo e mente, vem influenciando a ciência e a forma como compreendemos nosso próprio funcionamento. O dualismo pressupõe que corpo e mente são distintos e separáveis e que os fenômenos mentais não são físicos. Mas a neurociência e a psicologia cognitiva vêm nos mostrando que nosso comportamento não pode ser separado da biologia [1]. Corpo e cérebro tem uma relação mútua na qual assim como o cérebro influencia o corpo, este também pode influenciar o cérebro. Estudos como os conduzidos por Amy Cuddy apontam que a postura corporal pode afetar a produção de hormônios como o cortisol, associado ao stress e a testosterona, associada à dominância [2]. Outras pesquisas, como as conduzidas por Lawrence Shapiro, apontam que os movimentos exploratórios que fazemos podem ajudar a cognição e até mesmo substituir a necessidade da construção de representações mentais complexas [3].


Você já tentou trabalhar ou estudar algumas horas deitado na sua cama ou no sofá da sala? Ou então trabalhar em pé? Talvez você tenha percebido uma variação na sua energia ao adotar tais posturas... na sala de aula o mobiliário é projetado ergonomicamente para manter os alunos confortáveis e numa postura mais neutra.

Mas numa aula online fica muito mais desafiador conseguir interferir na postura dos alunos à distância.


Na sala de aula também é possível geramos experiências físicas diversificadas, como ao propor um exercício em grupo e fazer com que os alunos mudem suas mesas de lugar, ou que eles se levantem e apresentem algo na frente da sala, ou ainda ao trazer um livro ou material interessante que eles possam manusear e com o qual possam interagir. Na educação já existe um campo de estudos conhecido como embodied education, no qual o corpo dos alunos é considerado uma importante ferramenta para seu aprendizado. Não é à toa que empresas como a Lego, por exemplo, perceberam isso e criaram soluções como o Lego Serius Play, no qual a brincadeira com peças do brinquedo - que exige manuseamento e movimento - são utilizadas para solução de problemas em ambientes corporativos e educacionais. Todas essas experiências também ficam mais limitadas numa aula online.


Em resumo, as mudanças resultantes do contexto da pandemia trazem diversos benefícios para todos os envolvidos com atividades de ensino. Contudo, elas também trazem novos desafios. Mais do que isso, essas discussões e debates sobre a educação à distância trazem reflexões importantes para qualquer contexto de ensino, independente do cenário da pandemia. Entender mais sobre o sistema nervoso e o funcionamento do cérebro e atualizar metodologias e espaços de ensino levando esse conhecimento em consideração é um passo importante para que cada vez mais a gente consiga criar ambientes que contribuam para o aprendizado.


Os insights da NeuroArquitetura para ambientes de ensino não se limitam ao que foi discutido neste artigo. Por isso, em breve voltaremos a analisar outras questões relacionadas ao tema e que podem ajudar os arquitetos a enfrentarem esse desafio!

Quer saber mais sobre o tema? Siga a gente no Facebook ou Instagram! =)


Referências:


[1] DAMÁSIO, A. (1994) Descartes error: emotion, reason and the human brain. New York: Putnam Publishing. ISBN 978-0-399-13894-2


[2] CUDDY, A. (2015) Presence: Bringing Your Boldest Self to Your Biggest Challenges. New York: Little, Brown Spark


[3] Sapiro, L, Stolz, S. (2018) Embodied cognition and its significance for education.

Theory and Research in Education. 17(1):19-39

  • Instagram - White Circle
  • Facebook - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
  • LinkedIn - Círculo Branco

© 2018 by Andréa de Paiva