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Da Visão à Experiência Multisensorial: diálogos entre ciência cognitiva e design

Por Andréa de Paiva


O olho colabora com o corpo e os demais sentidos. O senso de realidade é fortalecido e articulado por essa interação constante. ” Pallasmaa, 2005, p.68 [1]



Da Visão à Experiência Multisensorial: diálogos entre ciência cognitiva e design | NeuroArchitecture


Nos últimos anos, a intersecção da neurociência e da arquitetura gerou discussões sobre como os espaços que habitamos influenciam as nossas experiências e o nosso bem-estar. Cada ambiente oferece aos usuários uma experiência única, formada pela: (a) combinação de suas características físicas que são percebidas através dos nossos sentidos; (b) seu uso e as possibilidades de ação que o ambiente oferece, chamadas de affordances; (c) os símbolos e significados que o ambiente representa para aqueles que o ocupam; (d) a interpretação única que cada indivíduo faz daquele espaço, com base em sua genética, memórias e emoções, entre outros. Tal experiência, que é multissensorial, contribui não apenas para nossa consciência do próprio ambiente onde estamos, mas também para nossa percepção e consciência daquilo que vivenciamos nestes espaços. A pergunta que surge, então, é como isso acontece? 


Para iniciar a nossa discussão, proponho que olhemos para um evento notável que aconteceu no passado e que culminou com o desenvolvimento da NeuroArquitetura. A experiência pessoal do renomado cientista Jonas Salk, na década de 1950, quando ele criou a primeira vacina contra a poliomielite, é considerada um ponto de partida para o nascimento da NeuroArquitetura [2]: no momento em que suas investigações estavam travadas no ambiente tradicional do laboratório, Salk tirou um período sabático para passar na abadia de Assis, na Itália. Foi ali que ele teve o insight que o levou a criar a vacina. Ou seja, naquele ambiente extremamente rico sensorialmente e simbolicamente, completamente diferente de um laboratório que é um espaço mais fechado e de aparência asséptica, ele encontrou o estado mental adequado para criar a vacina que salvaria milhares de crianças nos anos seguintes. Ele, por sua vez, não apenas detectou a mudança no seu estado mental, mas também a relação desta com o ambiente físico, o que o inspirou a apoiar pesquisas sobre como o ambiente físico pode afetar nosso cérebro e nosso comportamento. Casos como este, aliados a todas as pesquisas que vêm surgindo sobre percepção e consciência, nos fazem questionar o quanto somos impactados pelo ambiente multissensorial em que nos encontramos.


Com mais de 90% do nosso tempo gasto em ambientes construídos [3], o design de cidades e edifícios evoluiu significativamente ao longo do último século. Os avanços tecnológicos, desde estruturas de aço até a lâmpada elétrica, o ar condicionado, elevadores e carros, transformaram o nosso entorno e a forma de nos relacionarmos com ele. Junto às comodidades, esta evolução também trouxe desafios, como o aumento do caos urbano, da poluição sonora e de ambientes desconectados da natureza humana.


Além do nosso estado mental, como vimos no exemplo de Salk, os ambientes que ocupamos também impactam o nosso bem-estar. Por exemplo, estudos mostram que a exposição à natureza e elementos naturais tende a afetar positivamente o comportamento ao diminuir os níveis de stress [4, 5],  apoiar o restauro da cognição [6] e reduzir os riscos de desenvolver transtornos mentais [7, 8], entre outros. Apoiados nesses estudos, surgem conceitos como o do Design Biofílico, que busca a incorporação de elementos naturais e inspirados na natureza em ambientes construídos, com foco em melhorar o bem-estar geral.


Os efeitos do ambiente não se limitam à presença ou ausência de natureza. Estudos mostraram que a música e as paisagens sonoras podem mudar o desempenho do médico na cirurgia, bem como a percepção da dor e da passagem do tempo do paciente [9]. Há também pesquisas que mostram como a luz natural em uma sala de aula pode melhorar a cognição, aumentando os níveis de atenção e aprendizagem [10]; e estudos sobre os efeitos da experiência tátil de determinados materiais, além de pesquisas sobre os efeitos da nossa experiência olfativa no ambiente, entre muitos outros temas.


Por mais interessante que seja identificar como diferentes qualidades do ambiente influenciam as pessoas que o ocupam, não podemos cair na tentação de nos limitarmos a estudar apenas as qualidades individuais e não o todo que surge da combinação entre partes [11]. Compreender como diferentes estímulos sensoriais interagem quando combinados no mesmo ambiente é crucial. O Efeito McGurk, por exemplo, demonstra como informações congruentes de múltiplos sentidos podem melhorar a percepção, enquanto a incongruência pode perturbá-la.




Aplicando isso à arquitetura, pistas multissensoriais congruentes, incluindo elementos visuais, sonoros e olfativos, podem criar atmosferas mais envolventes e propícias ao bem-estar. Imagine ver, na sua sala de estar em casa, um lindo piso de madeira e, ao tirar os sapatos e caminhar descalço por ela, sentir a frieza e a dureza de um porcelanato (incongruente) ao invés da temperatura mais acolhedora e de uma textura menos dura como a da madeira (congruente). 


A apresentação de informações de múltiplas modalidades sensoriais no ambiente pode impactar tanto o comportamento quanto a percepção. Foi demonstrado que estímulos multissensoriais, quando congruentes, diminuem os tempos de reação simples e facilitam a detecção de estímulos, sugerindo uma convergência e integração desses sinais no cérebro, conforme defendido por Barry Stein e Alex Meredith [12, 13]. Por outro lado, a incongruência  pode reduzir as respostas neuronais, dificultando a interpretação que fazemos do ambiente e de seus estímulos, o que pode gerar efeitos prejudiciais no desempenho comportamental e cognitivo.


A congruência dos estímulos multissensoriais não diz respeito apenas às suas qualidades físicas. A semântica - ou seja, o significado - também desempenha um papel fundamental na determinação se os estímulos multissensoriais são congruentes ou incongruentes. Quando entramos num ambiente que tem mesas e cadeiras e uma lousa pendurada na parede, imediatamente fazemos uma conexão com a ideia de "sala de aula". Se neste mesmo ambiente também estiver presente uma cama, este objeto - incongruente com a ideia de sala de aula - gera um ruído na interpretação imediata que fazemos. Contudo, a ideia de sala de aula é formada com base na experiência de cada indivíduo. Sendo assim, o que uma pessoa reconhece como uma sala de aula não necessariamente engloba as mesmas características físicas que uma outra pessoa de cultura diferente poderia considerar como tal. Isso significa que nossas memórias também influenciam a percepção, gerando respostas mais rápidas na presença de pistas semanticamente congruentes com aquilo que conhecemos [14]. 


O design hospitalar, que vem mudando recentemente, vem fazendo bom uso desse conhecimento sobre a relação entre memória e percepção. Ao invés de oferecerem apenas ambientes frios e com aparência excessivamente asséptica como antes, cada vez mais os hospitais parecem verdadeiros hotéis. A atmosfera resultante impacta positivamente a experiência dos usuários, especialmente de pacientes e acompanhantes, não apenas por ser mais acolhedora, mas por criar um vínculo maior com memórias associadas às vivências passadas em hotéis, que normalmente são mais positivas e agradáveis do que as memórias associadas às vivências em ambientes clínicos e hospitalares.


Os estudos sobre a congruência de pistas multissensoriais na arquitetura não se limitam ao design hospitalar. Existem muitas pesquisas sobre a experiência do consumidor em lojas e restaurantes. Por exemplo, estudos mostraram que tocar música francesa numa loja de vinhos levou o vinho francês a vender mais que o vinho alemão e tocar música alemã levou o vinho alemão a vender mais que o vinho francês [15].


Toda experiência da arquitetura é multissensorial; qualidades de espaço, matéria e escala são medidas igualmente pelos olhos, ouvidos, nariz, pele, língua, esqueleto e músculos (...) Em vez da mera visão, ou dos cinco sentidos clássicos, a arquitetura envolve vários domínios de experiência sensorial que interagem e se fundem uns nos outros.” (Pallasmaa, 2005, p.68 [1])


Infelizmente, nossa cultura extremamente apegada à visão acaba influenciando a arquitetura e incentivando projetos que são visualmente magníficos, que geram lindas fotos para uma revista ou para o Instagram, mas que não necessariamente geram uma experiência mais humana e acolhedora do ponto de vista do usuário que explora o ambiente com todo o seu corpo. Os diálogos entre a ciência cognitiva e a arquitetura têm o potencial de ajudar arquitetos e designers a compreenderem de maneira mais profunda a relação das pessoas com os espaços, incentivando-os a incorporarem esse ponto de vista mais humano e multissensorial nos seus projetos. O incentivo a tais diálogos interdisciplinares ajuda a instigar uma transformação na abordagem dos profissionais do design, favorecendo uma visão mais holística dos espaços e seus usuários e transcendendo a mera estética visual.


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Referências:


[1] Pallasmaa, J. (2005) The Eyes of the Skin: Architecture and the Senses. John Wiley and Sons


[2] Eberhard, J.P., 2009. Brain Landscape: the Coexistence of Neuro-science and Architecture. University Press, Oxford.


​​[3] WELL Building Standard (2016) https://standard.wellcertified.com/


[4] Ulrich, R. S. (1983). Aesthetic and affective response to natural environment. In I. Altman & J. F. Wohlwill (Eds.), Behavior and the natural environment (pp. 85–125). New York: Springer. Retrieved from http://link​.springer​.com/chapter/10.1007/978-1-4613-3539-9_4


[5] Ulrich, R. S., Simons, R. F., Losito, B. D., Fiorito, E., Miles, M. A., & Zelson, M. (1991). Stress recovery during exposure to natural and urban environments. Journal of Environmental Psychology, 11(3), 201–230. doi:10​.1016/S0272-4944(05)80184-7. 


[6] Kaplan, S (1995) The restorative benefits of nature: Toward an integrative framework. Journal of Environmental Psychology. Volume 15, Issue 3, Pages 169-182


[7] Engemann, K., Pedersen, C. B., Arge, L., Tsirogiannis, C., Mortensen, P. B., & Svenning, J. C. (2019). Residential green space in childhood is associated with lower risk of psychiatric disorders from adolescence into adulthood. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 116(11), 5188–5193. https://doi.org/10.1073/pnas.180750411


[8] Krabbendam, L., & van Os, J. (2005). Schizophrenia and urbanicity: a major environmental influence--conditional on genetic risk. Schizophrenia bulletin, 31(4), 795–799. https://doi.org/10.1093/schbul/sbi060


[9] Spence, C., Keller, S. (2019) Medicine’s Melodies: On the Costs & Benefits of Music, Soundscapes, & Noise in Healthcare Settings. Music & Medicine. Volume 11, Issue 4. Pages 211 – 225 


[10] Shishegar, N.,  Boubekri, M. (2016) Natural Light and Productivity: Analyzing the Impacts of Daylighting on Students’ and Workers’ Health and Alertness. Conference: International Conference on "Health, Biological and Life Science" (HBLS-16)At: Istanbul, Turkey


[11] Chatterjee, A. (2024) The Neuro-Architecture Triad: A Cheat Code for Designers. Psychology Today. https://www.psychologytoday.com/us/blog/brain-behavior-and-beauty/202401/the-neuro-architecture-triad-a-cheat-code-for-designers


[12] Stein, B.E., Meredith, M.A. (1993) The Merging of the Senses. MIT Press.


[13] Wu, C., Wick, F., Pomplun, M. (2014) Guidance of visual attention by semantic information in real-world scenes. Front. Psychol., 06 February 2014 | https://doi.org/10.3389/fpsyg.2014.00054


[14] Laurienti, P., Kraft, R., Maldjian, J., Burdette, J., Wallace, M. (2004) Semantic congruence is a critical factor in multisensory behavioral performance. Exp Brain Res (2004) 158: 405–414


[15] North, A., Hargreaves, D., McKendrick, J. (1999) The Influence of In-Store Music on Wine Selections. Journal of Applied Psychology 84(2):271-276

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