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NeuroArquitetura e o papel das Emoções

Updated: Jun 17


Por Andréa de Paiva


A NeuroArquitetura vem provando que os edifícios e cidades afetam nosso cérebro e comportamento de uma forma ainda mais profunda do que aquela já apontada pela psicologia da arquitetura. O ambiente construído pode gerar emoções que alteram nosso estado mental e físico, impactando diretamente na tomada de decisão, na criatividade, na atenção, na socialização, na memória, no bem estar e na felicidade. Tendo dito isto, nós sabemos quais emoções nossos edifícios e cidades evocam nos seus usuários?


Antes de mais nada, vamos entender o que são as emoções. De acordo com António Damásio [1] as emoções são geradas no cérebro, mas elas acontecem no corpo todo. Elas são reações inatas do cérebro e se expressam no rosto através das nossas expressões faciais, na linguagem corporal e nas atitudes [2]. Elas afetam a forma como as pessoas se sentem (consciente ou inconscientemente), já que os sentimentos são experiências mentais dos estados corporais que acontecem quando o cérebro interpreta as emoções [3]. E é isso que provoca mudanças no comportamento e no bem estar.


O papel das emoções, numa visão evolucionista, é ajudar na regulação biológica [3]. Ou seja, auxiliar na adaptação do corpo ao meio para nos manter vivos. Mudanças do ambiente externo ou no nosso estado interno são percebidas pelo cérebro e ele responde adaptando o corpo para as novas condições. Se há uma ameaça no ambiente, por exemplo, tão logo ela seja percebida os nossos batimentos cardíacos aumentam, os músculos se contraem, a respiração acelera, preparando o corpo para fugir ou lutar. Neste caso, a ameaça atuou como um gatilho para mudar o estado físico e mental.


A arquitetura também pode ser um gatilho para nossas emoções. Características específicas do ambiente construído podem alterar a performance cerebral e o estado mental [4]. Por exemplo, uma ponte pode evocar um estado similar de fuga ou luta em pessoas com medo de altura. Um quarto barulhento pode fazer pessoas ficarem mais estressadas, diminuindo os níveis de aprendizado e memorização.


Níveis de regulação homeostática automática, do simples ao complexo (Damásio, 2003, p.32)

Existem diversos níveis de mudanças físicas e mentais que acontecem na regulação biológica, como mostra a árvore da figura acima, criada por António Damásio [3]. Emoções e sentimentos, como podemos notar, estão no topo da árvore. Já os estágios mais primitivos, tais como regulação metabólica, reflexos básicos e respostas imunes, estão na base. A árvore representa o conjunto de reações necessárias para nos mantermos vivos e o espaço físico pode afetar a maioria delas.


Cérebro e corpo estão sempre respondendo às mudanças do ambiente, mesmo quando a gente não percebe de forma consciente. E quanto mais primitiva a regulação, menor nosso nível de percepção dela. Você pode não sentir que o seu sistema imune está enfraquecendo até você ficar doente, por exemplo. A biofilia, campo que estuda os impactos da natureza no ser humano, revela que quanto mais ficamos próximos à ela, melhor a resposta do sistema imune [5] (ver artigo Entendendo a Biofilia).


Mas o que a arquitetura pode aprender com isso? Talvez nossas cidades ao estilo selva de pedras estejam afetando a saúde dos seus habitantes não só por conta da poluição e do ritmo de vida, mas também pela falta de contato com a natureza (ver artigo Cidades Doentes). Com mais parques, paredes verdes e árvores nas ruas as cidades poderiam afetar as pessoas de forma mais positiva. Mas e a arquitetura de interiores? Arquitetos podem aprender com a natureza e aplicar esse aprendizado nos seus projetos: formas mais orgânicas, proporções, fractais, cores, texturas, materiais. E, claro, eles também poderiam trazer mais natureza para dentro dos edifícios, incluindo imagens de paisagens naturais, vasos e jardins internos. A fábrica de caminhões da Volvo em Gotemburgo, na Suécia, é um bom exemplo. Eles construíram um oasis dentro da fábrica para garantir que seus funcionários tivessem algum contato com a natureza e intervalos mais relaxantes.


Fábrica de Caminhões da Volvo, Gotemburgo. Fonte: NeuroAU

Voltando à árvore e analisando os níveis intermediários (comportamentos de prazer e dor e motivações), nós também percebemos que a arquitetura tem impacto sobre eles. Será que a arquitetura pode ser nociva? Talvez se considerarmos os usuários do espaço como seres passivos, a resposta seja não. Mas os usuários, na maior parte do tempo, possuem uma relação ativa com o ambiente. Nós vamos à escola para aprender, ao hospital para nos recuperarmos, para casa descansar e socializar com nossa família, ao trabalho para criar, colaborar e produzir. E a nossa permanência nesses espaços não é tão rápida como a de um observador que está apenas passando. Nós passamos horas no trabalho, dias no hospital, nossa vida em casa. E mesmo que a curto prazo tais espaços pareçam neutros, a longo prazo eles podem ser bastante nocivos. Então a resposta é sim. Por isso, os neuroarquitetos deveriam se preocupar mais com os efeitos a longo prazo que seus edifícios podem provocar nos seus usuários.


Mais uma vez, voltando à árvore, no seu topo temos cognição, emoções e sentimentos, que são comportamentos mais complexos. Eles têm papel crucial no processo de tomada de decisão (ver artigo NeuroArquitetura, Emoção e Decisão). Quando as áreas do cérebro responsáveis pelo processamento das emoções são danificadas, os indivíduos passam a apresentar fortes mudanças de personalidade e comportamento [1]. Isso significa que quando há mudanças no estado emocional, o comportamento também sofre alterações como consequência. E, claro, já percebemos que a arquitetura tem impactos diretos nas emoções e sentimentos. Uma igreja majestosa, uma prisão escura e suja, um jardim florido colorido. Todos esses ambientes podem causar arrepios dos mais diferentes tipos e alterar nossa sensação.


Mas quais características do ambiente vão mudar nosso estado emocional? E como isso acontece? O cérebro utiliza as informações trazidas por todos os sentidos para criar sua própria percepção da realidade. E algumas respostas a determinados estímulos são inatas do cérebro, tais como as alterações no estado emocional. Tamanhos, formatos, cores, proporções, temperaturas, cheiros, movimentos, sons. Estas são algumas das características que, sozinhas ou combinadas, podem induzir o cérebro a reagir gerando um estado emocional específico.


Cada sentido leva diferentes tipos de informação ao cérebro. Por exemplo, a visão leva informações sobre a cor, tamanho, localização e movimento. Já a pele informa sobre temperatura, pressão e textura. Porém, antes de serem processadas pelo cérebro, todas essas informações são integradas para garantir que o cérebro faça a melhor interpretação possível da realidade. Depois dessa integração, as informações são novamente separadas e processadas nas áreas responsáveis por cada um dos sentidos no cérebro. Finalmente, uma imagem da realidade será formada para cada pessoa.


Por isso diferentes indivíduos possuem percepções tão diversas de uma mesma realidade. Pode ser uma imagem, um filme ou um edifício. As pessoas percebem de forma diferente porque a percepção da realidade é única de cada cérebro. Isso significa que a arquitetura pode evocar emoções e sentimentos diferentes em usuários com diferentes vivências e culturas.


É por essa razão que os arquitetos devem levar em consideração quem são os usuários dos seus edifícios: um mesmo espaço pode ser percebido de diferentes formas dependendo do seu público (ver artigo Para Quem Trabalha o Neuroarquiteto?). Por isso, também, não há uma única resposta sobre a "casa perfeita", o "hospital perfeito", a "escola perfeita". Tudo depende das atividades particulares que acontecerão nos edifícios e das pessoas que o utilizarão. Se as pessoas percebem a realidade de formas tão variadas, seus cérebros também responderão de forma diferente. Crianças podem sentir medo de um quarto escuro, enquanto adultos podem se sentir mais relaxados. Um edifício pode evocar em alguns a sensação de poder e, em outros, de opressão. Mas, o que é mais importante é que o que as pessoas sentem (conscientemente ou não) vai afetar a forma como se comportam, mesmo que elas não percebam. Elas podem ficar mais agressivas ou calmas, mais colaborativas ou egoístas, mais criativas ou mais críticas, memorizar mais ou menos.


Isso tudo nos leva à uma pergunta importante: os edifícios e cidades que projetamos evocam as emoções necessárias para gerar comportamentos positivos? Talvez a gente ainda precise de muitos insights dos neurocientistas e sociologistas para ter certeza que nossos projetos sejam não apenas bonitos, mas que também ajudem as pessoas a atingirem melhores níveis de performance, bem estar e satisfação.


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Referências:


[1] Damasio, A. (1994) Descartes’ Error. São Paulo: Companhia das Letras

[2] Eberhard, J.P. (2009) Brain Landscape: The Coexistance of Neuroscience and Architecture. Oxford: University Press

[3] Damásio, A. (2003) Looking for Spinoza. Boston: Houghton Mifflin Harcourt

[4] Eberhard, J.P. (2009) Brain Landscape: The Coexistance of Neuroscience and Architecture. Oxford: University Press

[4] Ekman, P. (2007) Emotions Revealed: recognizing faces and feelings to improve communication and emotional life. New York: Times Books

[5] SALINGAROS, N. (2015) Biophilia & Healing Environments Healthy Principles for Designing the Built World. Terrapin Bright Green.

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