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NeuroArquitetura, Emoção e Decisão

Updated: Jun 17

Por Andréa de Paiva


Você já se arrependeu de alguma decisão que tomou no calor de uma discussão? Ou já contou até 10 exatamente para não decidir ou dizer algo de cabeça quente? Quais são, afinal, os processos mentais por trás da tomada de decisão? E o que isso tudo tem a ver com a NeuroArquitetura??? É disso que vamos tratar nesse artigo.


Fonte: doctorschoicebd

O neurocientista português António Damásio é referência nos estudos sobre os processos de tomada de decisão e destaca a influência marcante dos estados emocionais. Muitas vezes nos arrependemos de uma decisão tomada "no calor do momento" por que esse "calor" é justamente o sintoma de que nossas emoções estão no auge e, portanto, o conteúdo racional das escolhas e decisões é mais baixo [1]. Mas, se paramos e contamos até dez, respirando profundamente, adiamos a tomada de decisão e damos ao cérebro o tempo de que precisa para baixar a intensidade das emoções, restabelecendo níveis maiores de autocontrole e racionalidade. Mas a neurociência tem provado que reverter estados emocionais intensos é algo difícil e que exige grande esforço e grande gasto de energia nos centros cognitivos do cérebro. Então, se você já se deixou levar mais de uma vez pelo “calor do momento” e depois se arrependeu, fique tranquilo: isso é bastante comum.


Nossas emoções estão o tempo todo influenciando a maneira como vemos o mundo [2]. Assim, percebemos o espaço ao nosso redor através do filtro da emoção que estamos vivendo no momento. Se estamos com medo, uma sala escura de madrugada pode parecer assustadora. Se estamos com raiva, uma bela paisagem pode não parecer tão bonita. Se estamos tristes, uma caminhada pode parecer muito mais longa e cansativa do que pareceria se estivéssemos felizes.

Esses filtros impactam não só nossas percepções, mas também as decisões que tomamos, das mais simples, como expressar uma opinião, até as mais complexas, como comprar um imóvel, por exemplo. No caso da sala escura, podemos decidir não passar por ela enquanto ela não parecer menos assustadora ou acender a luz para poder atravessá-la “em segurança”. No caso da paisagem que não parece tão bela, podemos decidir não comprar um imóvel naquela vizinhança. E, por fim, no caso da caminhada que parece mais longa, podemos decidir ir de carro ou dar meia volta no meio do trajeto. Se os filtros emocionais fossem outros, as decisões poderiam ser diferentes.


Mas, o aspecto de maior interesse aqui se refere ao poder da arquitetura em termos de estimular e alterar nossos estados emocionais, mudando o filtro através do qual percebemos as situações ao nosso redor a cada momento. Dessa forma, nós não só podemos perceber o espaço e a situação como um todo de forma diferente, como isso também pode alterar nosso comportamento. A arquitetura “fala” diretamente com nosso emocional e este, por sua vez, influencia nossas escolhas, desempenho e decisões.


Alguns exemplos práticos: o pé-direito muito alto dos supermercados pode nos deixar mais distraídos e nos levar a comprar mais produtos com defeito [3]; a iluminação de um teatro pode nos ajudar a esquecer a realidade e entrar naquele mundo de fantasia; a posição da cadeira do chefe pode nos intimidar ou nos induzir a ter mais respeito por ele. Em todos esses casos, os espaços exercem influência direta sobre as pessoas que circulam por eles, favorecendo atitudes e tomadas de decisão mais impulsivas ou mais ponderadas, conscientes ou não.

Mas, será que estamos concebendo e projetando espaços coerentes com os estímulos afetivos que gostaríamos de oferecer aos usuários? Será que o espaço de nossas escolas públicas estimula as crianças a aprender e se socializar? E será que a arquitetura de nossos hospitais favorece a recuperação física e psíquica dos pacientes? Ou até mesmo nossas cidades deixam seus cidadãos mais aptos a se relacionarem de forma mais harmônica? Infelizmente, na maioria das vezes a resposta é negativa. Por tudo isso é possível concluir que bons conhecimentos de NeuroArquitetura são fundamentais para tornar nossa relação com os espaços construídos mais saudável, funcional e humana.


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Referências:


[1] DAMÁSIO, A. (1994) Descartes error: emotion, reason and the human brain. New York: Putnam Publishing. ISBN 978-0-399-13894-2

[2] DAMASIO, A. (2003) Looking for Spinoza. Boston: Houghton Mifflin Harcourt . ISBN 978-0-15-100557-4

[3] MEYERS, L., ZHU, R. (2007) The Influence of Ceiling Height: The Effect of Priming on the Type of Processing That People Use. Journal of Consumer Research 34(2):174-186. DOI: 10.1086/519146


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