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NeuroArquitetura e Empatia: combustível da criação

Por Andréa de Paiva


Quando chega um novo cliente ao seu escritório trazendo uma demanda, o que você faz para conhecê-lo melhor? Como você descobre suas necessidades, seus valores e sonhos? Como você se conecta com ele? Algumas conversas e perguntas direto ao ponto nem sempre são a melhor estratégia para chegar às respostas. E sem respostas, o alvo imaginário para onde o arquiteto mira na hora de criar fica ofuscado pelos seus próprios valores e suas próprias opiniões. E o resultado disso são diálogos difíceis com o cliente, dificuldades no processo criativo e, por fim, projetos menos satisfatórios. No artigo de hoje, vamos discutir um amplo campo de pesquisa dentro da NeuroArquitetura: a empatia.


Image by Pete Linforth from Pixabay

Em muitos dos nossos artigos sobre NeuroArquitetura, vocês leram sobre comportamentos inatos que acontecem em resposta a determinados gatilhos, o que nós chamamos de memórias primitivas, gravadas no DNA ao longo da evolução. Porém, elas não são as únicas que influenciam nosso comportamento. Além de diferenças específicas na nossa genética individual, desde o nascimento, somos influenciados pelas culturas dos nossos grupos (família, escola, trabalho, cidade, país, etc.) e pelas nossas vivências individuais. Por isso, somos tão diferentes uns dos outros, sejam estes de outra região ou até mesmo nossos vizinhos e familiares. Dessa forma, cada cliente deve ser compreendido de forma única. Até mesmo quando um mesmo projeto tem mais de um cliente (uma família ou sócios, por exemplo), nem sempre as necessidades, os valores e os sonhos da dupla ou do grupo serão os mesmos.


Nesse sentido, para compreender os clientes e aquilo que cada um deles busca, é importante que sejam feitos exercícios de empatia. Mas, afinal de contas, o que é empatia? Ela é capacidade de se colocar no lugar do outro, de sentir o que ele sente, de ver o mundo através de seus olhos. A empatia é muito mais complexa do que a compreensão apenas racional e objetiva. Em termos evolutivos, é possível afirmar que nosso cérebro é adaptado para exercer a empatia. Há algumas décadas, o neurocientista Giacomo Rizzolatti descobriu que o cérebro de vários primatas, e principalmente o dos humanos, possui um sistema de neurônios espelho [1]. Uma de suas principais funções, de acordo com Rizzolatti, é compreender as ações dos outros para identificar suas motivações e reconhecer quando elas são amigáveis ou ameaçadoras.


Não é à toa que quando assistimos um filme nós nos identificamos com alguns personagens e sentimos com eles, ficando felizes quando eles estão realizados, tristes quando eles estão sofrendo ou com medo quando eles estão em perigo. Todos nós temos sistemas de neurônio espelho em pleno funcionamento, porém existem exercícios e técnicas para aprimorar a precisão da nossa capacidade empática.


Na arquitetura, é a capacidade de ver o mundo através dos olhos do cliente, de sentir o que ele sente, a principal fonte de inspiração para a criação do arquiteto. Sem isso, a tendência é que as soluções adotadas girem sempre em torno dos mesmos padrões com os quais o arquiteto se identifica, satisfazendo menos as necessidades do cliente e gerando menos conexão com o espaço construído por parte de seus usuários. Um exemplo que merece destaque são os projetos de habitação popular. De maneira geral, os principais objetivos que norteiam a concepção desses projetos é a redução de custos e a oferta de moradia digna para famílias que antes moravam em condições precárias. Mas quantos dos arquitetos que projetaram esse tipo de habitação foram realmente conversar com as famílias, entender seus valores, suas necessidades e seus sonhos? O resultado é o aumento da ausência de conexão entre morador e residência. Como discutido em maior profundidade no artigo Quanto de NeuroArquitetura há nos condomínios do Minha Casa, Minha Vida? [2], a consequência é a falta de cuidado com o espaço construído, a depredação das áreas comuns em condomínios, a falta de conexão entre vizinhos, o aumento da percepção de falta de segurança e, até mesmo, a vontade de abandonar o imóvel, como aconteceu em muitos apartamentos do Pruitt-Igoe nos Estados Unidos [3].


Uma das principais barreiras para o exercício empático são os vieses inconscientes, tema do nosso último artigo [4]. Para economizar energia, assim que o cérebro identifica alguns elementos que remetem a uma experiência conhecida, através de associações, ele utiliza um "atalho" para não ter que processar todas as informações envolvidas e antecipa o resultado. Porém, essa interpretação precipitada e automática nem sempre está correta, levando a conclusões equivocadas. No caso dos nossos clientes, talvez pela sua aparência, ou por sua maneira de falar ou de agir, eles nos remetam a outras pessoas que já conhecemos, fazendo com que tiremos conclusões sobre eles com base no que sabemos sobre os outros.


Um outro campo de estudo dentro da neurociência e da NeuroArquitetura é o funcionamento dos processos criativos no cérebro [5]. A criatividade é a capacidade de recombinar informações já existentes para resolver problemas de maneiras novas. É a habilidade de perceber o mundo de formas diferentes, de perceber padrões escondidos, fazer conexões entre elementos aparentemente não relacionados e gerar soluções novas em qualquer área da vida. Ou seja, quanto mais informações acumulamos, aumentamos as possibilidades de combinação entre elas. No caso do projeto de arquitetura, que é feito de acordo com o que o cliente busca, parte dessas informações a serem recombinadas serão aquelas descobertas através da empatia. Quanto mais preciso e mais profundo for o exercício empático, mais o arquiteto poderá criar de acordo com as particularidades de cada cliente, aumentando as possibilidades de identificação e satisfação com o projeto.


Para concluir, vale destacar aqui um elemento de grande importância que não deve ser esquecido. Muitas vezes, o cliente que vai até o arquiteto e contrata o projeto não é o usuário final do espaço a ser construído (ler o artigo Para Quem Trabalha o NeuroArquiteto). Nesse sentido, o desafio do arquiteto de exercer a empatia se multiplica, já que o projeto também tem que gerar conexão e atender às necessidades dos usuários do espaço [6]. Quando este for o caso, o arquiteto deve ter cautela para não excluir nenhum dos principais tipos de usuários daquele ambiente a ser projetado e também para não se perder com o excesso de informações. Os edifícios hospitalares são um exemplo de ambiente complexo e com diversos usuários com necessidades diferentes [7]. A solução nestes casos, é estar atento aos diversos grupos de usuários e clientes, sabendo hierarquizar e priorizar as necessidades daqueles que podem ser mais impactados pelo ambiente construído.


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Referências:


[1] RIZZOLATTI, G., CRAIGHERO, L. (2004) The Mirror-Neuron System. Annual Review of Neuroscience 27(1):169-92

[2] PAIVA, A (2018) Quanto de NeuroArquitetura há nos condomínios do Minha Casa, Minha Vida?

[3] Pruitt-Igoe: the troubled high-rise that came to define urban America – a history of cities in 50 buildings, day 21. The Guardian.

[3] PAIVA, A. (2019) Vieses Inconscientes: onde eles estão presentes?

[4] ONARHEIM, B., FRIIS-OLIVARIUS, M. (2013) Applying the neuroscience of creativity to creativity training. Front. Hum. Neurosci.

[5] PAIVA, A. (2018) Para quem trabalha o neuroarquiteto?

[6] PAIVA, A. (2018) A NeuroArquitetura e os Desafios da Arquitetura Hospitalar


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