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NeuroArquitetura e Percepção: criando experiências mais completas para os ambientes

Por Andréa de Paiva

Este artigo é inspirado no trabalho que apresentamos na The Science of Consciousness Conference, organizada pela Universidade do Arizona em 2020


A percepção vem sendo tema de estudos de psicologia e de neurociência há bastante tempo. Entender como os sentidos captam informações sobre o mundo exterior ao corpo, como imagens, sons, cheiros, texturas, temperaturas, sabores e como o cérebro interpreta tudo isso contribui para que arquitetos e designers tomem decisões mais acertadas em seus projetos. Afinal, um dos assuntos mais discutidos quando o assunto é percepção é: ela é relativa [1]! Isto é, diferentes fatores podem influenciar como percebemos uma mesma realidade [2]. Mas, no caso da arquitetura e do design, como a NeuroArquitetura pode contribuir para a compreensão de como diferentes características sensoriais dos ambientes podem afetar as percepções dos usuários?


Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

O primeiro passo para tentar entender de maneira mais completa como os ambientes que criamos podem ser percebidos é buscar compreender quem são os principais grupos de usuários [3]. Diferenças nos órgãos sensoriais (como a deficiência de um ou mais sentidos, por exemplo), podem fazer com que a mais simples realidade seja percebida de maneira completamente diferente. Mas existem outras variações que merecem ser mencionadas. A idade dos usuários também pode afetar diretamente o funcionamento dos órgãos sensoriais, como os olhos ou ouvidos, ou mesmo o funcionamento do seu cérebro ao receber e interpretar as informações do meio. Um idoso, por exemplo, pode ter dificuldades em visualizar algumas informações ou até mesmo perceber distâncias como mais longas por conta do cansaço muscular. Já uma criança cujo cérebro está em desenvolvimento, por outro lado, pode ter dificuldades de integrar informações sobre rotas, dificultando sua navegação num edifício mais complexo.

A importância de entender quem são os principais grupos de usuários não para por aí. Diversos estudos vêm mostrando que diferenças culturais afetam diretamente a percepção. Por exemplo, um estudo conduzido nos Estados Unidos, comparou as reações cerebrais de vários indivíduos ao tomarem Coca-Cola e Pepsi. O que foi notado é que ao tomar um dos refrigerantes sem receber nenhuma informação sobre a marca ativava o cérebro de maneira diferente de quando a marca era revelada. Mais do que isso, quando os indivíduos sabiam que tomariam Coca-Cola (e não Pepsi), áreas relacionadas ao circuito de recompensa do cérebro se ativavam. Ou seja, apesar da informação sensorial do paladar ser praticamente a mesma para os dois refrigerantes, o simples fato de saber que um deles era Coca-Cola afetava a interpretação que o cérebro fazia. Mas é claro, isso só funciona quando as pessoas compartilham uma mesma memória cultural. Provavelmente, se esse teste fosse feito em tribos indígenas isoladas, sem influência da globalização, nas quais não existe uma memória cultural compartilhada sobre o que é Coca-Cola, os resultados seriam bem diferentes. Nesse sentido, entender melhor quem são os diferentes grupos de usuários de um mesmo espaço pode ajudar arquitetos e designers a encontrarem elementos que tenham significado mais forte para cada grupo, facilitando a conexão com o espaço, sua memorização e, até mesmo, impactando na intensidade emocional das experiências ali vividas [4].

Por fim, vale a pena mencionar um outro fator que impacta na percepção do ambiente: a somatória de informações trazidas pelos diferentes sentidos. Isso mesmo, para criar sua interpretação da realidade, o cérebro não só se baseia em experiências anteriores (como no caso da Coca-Cola), mas ele também integra os diferentes sentidos. Sendo assim, um sentido pode influenciar na percepção dos outros. Vários estudos vêm discutindo temas como o sonic seasoning, por exemplo, que aponta que o som do ambiente pode influenciar na nossa percepção de sabor [5]. Outros estudos apontam que a cor da iluminação de um espaço afeta não apenas a percepção de sabor, mas também a percepção de valor de um produto [6]. Por isso, ao trabalhar num novo projeto, designers e arquitetos devem pensar não apenas nas informações visuais e funcionais, mas na atmosfera de cada ambiente gerada pela combinação de todas as informações sensoriais. Cores, texturas, sons, iluminação, cheiros, temperaturas e outros devem ser pensados de maneira a criarem uma atmosfera única que contribua para a experiência dos usuários em cada ambiente [7].

Em resumo, não basta criar projetos interessantes e esteticamente agradáveis na nossa opinião. Para cada ambiente de um projeto, é importante entender como os diferentes grupos de usuário podem perceber aquele espaço. Nem sempre um projeto interessante para nós, arquitetos, vai ser interessante do ponto de vista do cliente, porque ele tem diferentes memórias culturais das nossas e, como vimos, isso influencia a percepção. Além disso, também é importante que as informações sensoriais estejam alinhadas para criar atmosferas que contribuam para a experiência do espaço [8]. Pensar apenas na aparência de um ambiente não é o suficiente para criar uma atmosfera completa. É preciso planejar para todos os sentidos e de maneira integrada.


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Referências:

[1] Paiva, A. (2019) Os Olhos do Corpo: percepção, sensorialidade e a NeuroArquitetura. Neuroau.com

[2] Lotto, B. (2017) Golpe de Vista. Rio de Janeiro: Rocco.

[3] Paiva, A. (2019) NeuroArquitetura e Empatia: combustível da criação. neuroau.com

[4] McClure, S., Li, J., Tomlin, D., Cypert, K., Montague, L., Montague, P. (2004) Neural Correlates of Behavioral Preference for Culturally Familiar Drinks. Volume 44, Issue 2, 14 October 2004, Pages 379-387

[5] Spence, C., Carvalho, F., Velasco, C., Wang, Q. (2019) Auditory Contributions to Food Perception and Consumer Behaviour. Book Introduction.

[6] Oberfield, D., Hecht, H., Allendorf, U., Wickelmaer, F. (2009) Ambient Lighting Modifies The Flavor Of Wine. Journal of Sensory Studies2009 Vol. 24; Iss. 6.

[7] Spence, C., Puccinelli, N., Grewal, D., Roggeveen, A. (2014) Store Atmospherics: A Multisensory Perspective. Psychology and Marketing 31(7)

[8] Spence, C. (2020) Senses of Place: Architectural Design for the Multisensory Mind. Cognitive Research: Principles and Implications (CRPI)

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