Neurodiversidade e Acessibilidade: insights da NeuroArquitetura

Por Andréa de Paiva e Márcia Galvão (@arquiautismo)

No contexto da arquitetura e do urbanismo, são comuns as discussões sobre acessibilidade dos espaços. Rampas, pisos táteis e banheiros especiais são algumas das características que devem estar presentes para tornar o ambiente acessível para alguém que tenha uma deficiência de mobilidade ou visual, por exemplo. Mas você já parou para pensar em outras dificuldades que diferentes pessoas podem apresentar na sua relação com o ambiente? As deficiências físicas que prejudicam a mobilidade ou as deficiências relacionadas aos órgãos sensoriais, como os olhos ou os ouvidos, não são as únicas que podem afetar a experiência dos usuários no ambiente: variações no funcionamento do maquinário cerebral também têm um grande potencial. No artigo de hoje, vamos discutir um pouco sobre os cruzamentos entre os estudos sobre neurodiversidades e a NeuroArquitetura.

Neurodiversidade e acessibilidade: insights da NeuroArquitetura
Image by Gerd Altmann from Pixabay

A questão da acessibilidade na arquitetura, no urbanismo e no design é um grande desafio. Isso se dá por algumas razões. Antes de mais nada, são muitos os diferentes tipos de deficiência, variando entre a física, visual, auditiva, intelectual, psicossocial e a deficiência múltipla, que é a combinação de duas ou mais deficiências. Segundo a lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência "considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas" [1]. O agrupamento dos diferentes tipos de deficiência torna difícil a compreensão das necessidades de cada grupo de usuários portadores, já que os grupos são muitos e cada um apresenta necessidades específicas. É sempre possível realizar exercícios de empatia, como entrevistas e observação da jornada do usuário, para entender melhor a experiência dos diferentes grupos no ambiente. Mas, dada a complexidade desse tema, entrevistas e observação podem não ser suficientes para compreender em profundidade a relação de alguns públicos com o ambiente. Por isso, estudar sobre neurodiversidade é importante para criar espaços mais inclusivos.

Um dos maiores desafios para criarmos espaços mais acessíveis é entender as necessidades específicas das pessoas com deficiências intelectuais e psicossociais, cujos cérebros não se encaixam nos padrões típicos de funcionamento (por isso o uso do termo neurodiversidade). Tais deficiências, em alguns casos, podem ser mais difíceis de detectar e seus portadores podem apresentar necessidades em relação ao ambiente que sejam menos objetivas do que aquelas de alguém com uma necessidade física, por exemplo. Num exercício de observação de jornada de usuário, fica claro que um cadeirante deixou de acessar um determinado espaço por conta da ausência de rampas ou elevadores para vencer um desnível. Num exercício semelhante com uma pessoa que apresenta o TEA (transtorno do espectro autista) essa observação já não é tão evidente, pois tais necessidades são mais difíceis de detectar.

Mas, afinal de contas, que características são essas que podem afetar de maneira tão intensa a experiência dos indivíduos no ambiente, ao ponto de prejudicar a acessibilidade de alguns grupos de usuários? A resposta para essa pergunta é bastante extensa e complexa, mas nós selecionamos aqui um elemento para discutirmos neste artigo: a reatividade sensorial.


O processamento sensorial é a base para a adaptação do nosso comportamento frente às condições do ambiente. Ele é a nossa capacidade de captar as informações do ambiente através dos sentidos, organizá-las e interpretá-las e, por fim, dar uma resposta significativa. A inadequação desse processamento pode causar algumas disfunções, entre elas a dificuldade com a reatividade sensorial, que é a reação/resposta às experiências sensoriais. Ou seja, quando o processamento das informações trazidas pelos sentidos não acontece de maneira adequada, as reações a tais estímulos são prejudicadas. Isso afeta não apenas o comportamento do usuário, mas sua experiência como um todo [2] [3].


Tais inadequações da reatividade sensorial são critérios de diagnóstico do Transtorno do Espectro do Autismo [4]. Elas se dividem em dois grupos: hiper-reatividade, que é a reação excessiva a determinadas informações sensoriais do ambiente; e hiporreatividade, que é a pobre (ou ausente) reação a determinadas informações sensoriais [3] [4]. Vale destacar que ambas podem acontecer com cada um dos diferentes sistemas sensoriais. Também precisamos ter em mente que os sistemas sensoriais não se limitam aos 5 sentidos clássicos (visão, audição, tato, olfato e paladar). O sistema vestibular (envolve o equilíbrio), o interoceptivo (envolve as sensações corporais internas) e o proprioceptivo (envolve percepção da localização espacial do corpo, como sua posição e orientação, a força exercida pelos músculos e a posição de cada parte do corpo em relação às demais), também são sistemas sensoriais que podem ser afetados pela hiper e pela hiporreatividade.


Conforme mencionamos, a hiperreatividade pode estar relacionada com cada um dos diferentes sistemas sensoriais. No caso do sistema tátil, o indivíduo pode apresentar incômodo com certas texturas, tecidos, etiquetas de roupas ou reagir de maneira intensa em resposta ao toque de pessoas, filas e multidões. No sistema vestibular, o indivíduo com hiperreatividade pode ter insegurança gravitacional e náuseas quando em movimento. Já a hiperreatividade no sistema auditivo pode resultar em reações extremas a determinados ruídos. No sistema olfatório, por sua vez, os indivíduos evitam lugares com cheiros fortes. A hiperreatividade, no caso do sistema visual, resulta em reações ao excesso de estimulação luminosa ou em distração com padrões, poluição visual e até movimentos. No sistema proprioceptivo, os indivíduos podem ficar desconfortáveis com algumas posições corporais e ter dificuldade de manipular objetos pequenos [6].


Assim como no caso da hiperreatividade, a hiporreatividade também pode estar relacionada com diferentes sistemas sensoriais. No sistema tátil, os indivíduos podem tocar pessoas desnecessariamente, além de apresentarem alta tolerância a dor e temperatura (o que pode ser bastante perigoso para sua segurança!). No sistema auditivo, indivíduos com hiporreatividade muitas vezes não respondem quando chamados, gostam de barulhos altos e estranhos, assim como de fazer barulhos. No sistema visual, eles ignoram pessoas no ambiente, veem apenas o contorno de alguns objetos, gostam da luz do sol e de cores brilhantes. No caso do sistema vestibular, a hiporreatividade pode fazer com que os indivíduos se movam desnecessariamente, apresentando movimentos repetitivos e gostando de girar em círculos ou de qualquer tarefa que envolva movimento. No sistema olfatório, é comum que coloquem objetos na boca e busquem cheiros fortes. No proprioceptivo, apresentam dificuldade em localizar sua posição no espaço e frequentemente se encostam em outras pessoas [6].

Dessa forma, estímulos que podem passar quase despercebidos para uma pessoa neurotípica, podem gerar perturbação e incômodo em indivíduos que apresentam hiperreatividade ou então uma fascinação em indivíduos com hiporreatividade. Nenhuma dessas situações é a ideal dado que ambas interferem na participação efetiva das atividades da vida cotidiana. Além disso, elas podem desencadear uma desorganização emocional e culminar em comportamentos de isolamento, irritabilidade, inquietação e desatenção [2].


O que fazer para tornarmos nossos espaços mais acessíveis? As soluções de arquitetura que levam em consideração o processamento sensorial dos usuários têm se mostrado bem sucedidas. Um grande exemplo na área é o trabalho desenvolvido pela arquiteta Magda Mostafá, que criou o primeiro índice de critérios de design baseado em evidência para ser aplicado em ambientes construídos para indivíduos com Transtorno do Espectro do Autismo (ASPECTSS™ Design Index). Ele consiste num conjunto de diretrizes, com base em 7 critérios: acústica, sequenciamento espacial, espaços de escape, compartimentalização, transições, zoneamento sensorial e segurança [5]. Uma informação que vale a pena destacar é que, ao criar espaços levando em consideração a experiência de usuários com variações na reatividade sensorial, isso não prejudica a experiência dos demais usuários (neurotípicos) no espaço. Ou seja, é possível criarmos ambientes mais inclusivos que proporcionem experiências adequadas para os diferentes grupos de usuários, não favorecendo apenas alguns grupos e excluindo outros. Mas, para isso, é preciso ter uma visão sistêmica do projeto, considerando não apenas cada ambiente, mas como eles se conectam e como o conjunto todo afeta a experiência dos usuários. Mas isso vai ser assunto para um próximo artigo!


A relação entre NeuroArquitetura e neurodiversidade é bastante ampla e não se esgota no que discutimos até aqui. Por isso, em breve voltaremos a analisar outras questões relacionadas ao tema e que podem ajudar os arquitetos e designers a enfrentarem esse desafio!


Se você quiser saber um pouco mais sobre esse assunto, vale à pena assistir ao vídeo no qual as autoras batem um papo sobre neurodiversidades e arquitetura:



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Referências:


[1] Brasil, Lei Nº 13.146, DE 6 DE JULHO DE 2015 Art. 2º.


[2] Ayres, J. (2005) Sensory Integration and the Child – understanding hidden sensory challenges. WPS Publish


[3] Posar, A.; Visconti, P. (2018) Alterações sensoriais em crianças com transtorno do espectro do autismo. J. Pediatr. (Rio J.), Porto Alegre , v. 94, n. 4, p. 342-350


[4] Arlington, V.A. (2013) Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - DSM-5 (5th ed.). American Psychiatric Association.


[5] Mostafa, M. ASPECTSS™ Design Index https://www.autism.archi/aspectss


[6] Ghaines, K. (2016) Designing for autism spectrum disorders / Kristi Gaines, Angela Bourne, Michelle Pearson an Mesha Kleibrink. New York, Routledge.



As autoras: Para saber mais sobre Andréa de Paiva, clique aqui.

Autora convidada: Márcia Galvão (@arquiautismo)


Márcia Galvão é Arquiteta Especialista em Ambientes Amigáveis para o Autismo | Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Unime-BA e em Comunicação Social pela UCSAL-BA | Pós Graduada em Neurociências e Comportamento - PUC-RS | Pós Graduanda em Neurociência aplicada a Arquitetura – IPOG |Pós-Graduanda em Intervenção ABA para Autismo e Deficiência Intelectual – CBI of Miami | Formação Completa em Neuroarquitetura - Neuroarq Academy | Curso Neurociência para Todos – Carla Tieppo | Curso Neurociência Aplicada a Arquitetura – Miriam Runge | Curso Neurociência e Arquitetura – Andrea de Paiva | Curso Early Start Denver Model – Mind Institute | Curso em Integração Sensorial – CBI of Miami | Curso Conceitos Básicos para Autismo Programa TEACCH – 4Tea Educacional | Arquiteta Voluntária da AMA-BA |Idealizadora do Arquiautismo | contato@arquiautismo.com.br